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14/06
Uso excessivo de agrotóxicos torna as pragas das lavouras mais resistentes

Uso excessivo de agrotóxicos torna as pragas das lavouras mais resistentes

Um assunto que tem gerado muita preocupação entre pesquisadores e agricultores: está ficando difícil controlar as pragas, doenças e plantas invasoras. O uso excessivo e errado de agrotóxicos e plantas transgênicas faz surgir organismos cada vez mais resistentes.

E a dificuldade de combater esses organismos, que resistem aos remédios e venenos disponíveis no mercado, leva a situações alarmantes. Uma ala inteira de um hospital já chegou a ser isolada, por causa de uma superbactéria. E uma área inteira de lavoura já esteve em vazio sanitário, até o próximo plantio.

A resistência acontece da seguinte maneira: vamos supor que em uma lavoura de soja, exista uma infestação de percevejos. O agricultor vai entrar com uma pulverização de inseticida. A maioria dos percevejos vai morrer. Mas existem entre eles, alguns que são diferentes. Eles têm, lá no seu DNA, o gene da resistência. Esses, vão sobreviver. Depois de várias e várias pulverizações e com a reprodução desses insetos, aqueles percevejos que eram diferentes, passam a ser maioria e aí o produto não vai mais funcionar.

Isso acontece com insetos, fungos, bactérias e plantas invasoras em diversas culturas. E foi o que ocorreu em uma lavoura em Marília, interior de São Paulo.
Seu Célio Tomazinho tentou controlar a praga, aplicou inseticida, mas não teve o resultado esperado: “Antes, qualquer cheiro de produto que você passava, tinha um controle fácil. Hoje, você tem produtos caros e não consegue eficiência na lavoura”.

Com a praga fora de controle, ele decidiu abandonar a área: “Essa área tá perdida, 100%. Numa área dessa, de 50 hectares, você pode pensar nuns R$ 90 mil perdidos”.
O excesso de produtos químicos é uma das razões da seleção de organismos resistentes. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (SINDIVEG), dos US$ 54,6 bilhões vendidos em agrotóxicos no mundo, em 2015, o Brasil consumiu sozinho US$ 9,6 bilhões. O número representa 17,5% do consumo mundial.

Mais da metade desses produtos, quase 52%, são usados na cultura da soja. O agrônomo Adeney de Freitas Bueno pesquisa a resistência em insetos e defende esse percentual poderia ser bem menor: “O Brasil hoje poderia reduzir, na cultura da soja, em média 50% do uso de inseticida, sem perder em produtividade”.

No caso da soja, é o percevejo que traz mais problemas. Adeney explica que a falta de variedade de meios de combate à praga, torna o problema ainda maior: “Pelo pouco número de inseticidas disponíveis no mercado, dificulta para o produtor fazer a rotação com diferentes mecanismos de ação. Ele, muitas vezes, acaba abusando do uso desses produtos e usando demais, seleciona os insetos resistentes. Os inseticidas utilizados, que se deveria ter a média de controle de 90%, talvez até mais, não passa de 60% ou 70%, no máximo”.

Variar o inseticida e aplicar menos. Essas duas regras fazem parte do MIP – o Manejo Integrado de Pragas. O MIP existe há muitos anos e consiste em medidas que o produtor deve tomar para monitoramento da lavoura. A partir deste monitoramento, que analisa a quantidade de insetos encontrados por amostragem, é possível determinar se é necessária a pulverização do inseticida.

O agrônomo Nelson Harger, da EMATER/PR explica as vantagens: “O Paraná utiliza, em média 4,8 aplicações. Nas áreas monitoradas, apenas 2,3 aplicações. Então há uma redução pelo menos pela metade da necessidade de inseticida. Se o estado do Paraná inteiro, nos mais 5 milhões de hectares, tivesse aplicado o MIP, nós teríamos uma economia de cerca de cerca de R$ 1 bilhão no controle de pragas”.

Seu João Nazima é agricultor antigo. Sabe da existência do MIP, mas abriu mão de usar o pano de batida. Prefere confiar em sua própria experiência: “Pela experiência de vários anos praticamente num usa pano”. Ele diz que até agora não observou nenhum resistência. “O percevejo, eu não vejo resistência nenhuma. Se faz a aplicação, tem efeito”.

Ele planta soja BT, a soja transgênica, que possui em seu DNA, o gene do Bacillus Thuringiensis, um inimigo natural da lagarta da soja.

Segundo o agrônomo Adeney, isso aumenta o risco de selecionar insetos resistentes, pois é como se tivesse o inseticida o tempo todo: 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Como prevenção, o agricultor que planta soja BT, tem a recomendação de plantar 20% de soja convencional, numa área chamada de refúgio. O seu João Nazima conta que já faz isso, mas não tem certeza se é a maneira correta: “Talvez não seja o ideal, mas eu peguei a área total de plantio e uns 20% do total plantei num lugar só [a soja convencional]. Acho que não é o certo, mas tem os 20%”.

O correto seria plantar no mesmo talhão da soja transgênica, 20% de soja convencional. As duas variedades devem ser semeadas na mesma época e ter ciclos próximos. Assim, a área de soja convencional terá uma população de percevejos vulneráveis à tecnologia BT, que vão cruzar com os percevejos resistentes da área de soja transgênica, gerando lagartas sucetíveis, que serão controladas.

O resultado da tecnologia mal utilizada começa a surgir na lavoura do seu João, onde lagartas mais resistentes já estão aparecendo: “A gente já tem observado isso daí. Então, mesmo sendo BT, a gente faz pelo menos uma aplicação de inseticida pra controlar a lagarta”.

Fonte: G1 – Globo Rural