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22/08
Só herbicidas não resolvem infestação

Só herbicidas não resolvem infestação

Integrar diferentes práticas de manejo da lavoura para controlar plantas daninhas não é mais opção, mas sim necessidade na agricultura moderna. Apostar apenas na química dos herbicidas, com aplicações indiscriminadas, tem trazido insegurança aos produtores, já que o glifosato se mostra cada vez mais ineficiente.

Basta olhar o histórico do País para comprovar a situação perigosa. Os casos de resistência ao glifosato começaram em 2003, com o capim azevém, no Rio Grande do Sul. Dois anos depois foi a vez da buva, novamente no Rio Grande do Sul e também no Paraná. Por fim, em 2008, foi a vez do capim amargoso.

“A partir daí surgiram novos casos de resistência simplesmente porque o produtor usa repetidamente o herbicida ao longo do tempo. A tecnologia é boa para a agricultura como um todo, só que mal utilizada, traz consequências negativas”, explica o professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) Mauro Rizzardi, que trabalha com ecofisiologia, manejo e controle de plantas daninhas.

Segundo ele, são dois os problemas mais frequentes na agricultura brasileira atual: um aumento na ocorrência de espécies que até então sempre existiram, mas com baixa infestação, e o crescimento das plantas tolerantes ao glifosato.

Ainda conforme Rizzardi, o estrago pode ser gigantesco. Uma buva por metro quadrado de lavoura pode reduzir a produtividade de grãos de 4% a 12%. Já no caso do capim amargoso, bem recorrente no Paraná e Centro Oeste, três plantas por metro quadrado podem significar uma queda na produtividade de mais de 40%. “Um pesquisador australiano bem renomado no assunto diz que o glifosato é um daqueles produtos que surge a cada 100 anos”, salienta.

Por isso, na concepção de Rizzardi, o produtor brasileiro precisa retornar aos princípios básicos de manejo de plantas daninhas e associá-los ao controle químico. “Não se pode ficar apenas em cima do herbicida, já que isso acelera o processo de seleção, como tem ocorrido de forma intensa no Centro-Oeste. A comodidade faz com que o produtor faça isso. Criar e aprovar novos herbicidas é um processo lento. Só para se ter uma ideia, o último mecanismo de ação lançado no País foi em 1986, há 30 anos”, lembra.

Para modificar o cenário atual de resistência e novas espécies de plantas daninhas, a estratégia é criar diversidade no ambiente. Rizzardi cita a rotação de culturas, a rotação de eventos biotecnológicos, apostando em diferentes transgenias, o trabalho com culturas de cobertura e até a limpeza de equipamentos como etapas importantes de manejo agrícola.

“No caso da rotação de culturas, acabam se criando estratégias de controle para cada uma das lavouras. Já com o uso das culturas de cobertura, a proteção do solo diminui sensivelmente o aparecimento de plantas daninhas. E a limpeza dos equipamentos evita que se espalhem sementes das plantas, infestando outras áreas. Muitas vezes, essas ações não acontecem porque o produtor esbarra em questões econômicas”, alerta o pesquisador.

Ele acredita que se esses mecanismos forem aplicados de forma efetiva na agricultura brasileira, junto aos herbicidas que estão no mercado, “o combate às plantas daninhas terá uma sobrevida fantástica”.

Folha de Londrina
Autor: Victor Lopes