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08/11
Indústrias apostam em contratos para fidelizar produtores de leite

Indústrias apostam em contratos para fidelizar produtores de leite

A redução da produção de leite no Rio Grande do Sul, realidade que impacta o fornecimento de matéria-prima para os laticínios, leva o setor a buscar alternativas para elevar a captação. O desafio é abastecer não apenas as plantas atuais, mas as ampliações anunciadas pela indústria. As obras aumentarão em 16,7% a capacidade de processamento, passando de 18,5 milhões de litros por dia em 2015 para 21,6 milhões no final de 2017, quando estarão concluídas.

A meta parece ainda maior quando considerada a ociosidade atual das plantas — 37,8% — que operaram com a média de 11,47 milhões de litros por dia em 2015. Frente à escassez de matéria-prima, algumas empresas estudam como formalizar contratos de até 12 meses com os produtores.

— Queremos garantir estabilidade no fornecimento e, ao mesmo tempo, fortalecer a relação com os produtores — afirma Guilherme Portella, diretor de Relações Institucionais e Comunicação da Lactalis, que só no Rio Grande do Sul trabalha com 10 mil produtores.

Segundo o executivo, o projeto contempla o fornecimento de ração, medicamentos e genética, além de fomento à assistência técnica e extensão rural. As medidas integram programa de estímulo aos produtores que será lançado pela Lactalis em novembro e deve sair do papel ainda este ano, adianta Portella.

Esta é uma das estratégias da empresa francesa para atender à demanda, cuja média é de 3 milhões de litros ao dia, e que nos próximos dois anos será ampliada em 50%, a partir do investimento de R$ 104 milhões nas unidades de Teutônia, Santa Rosa, Ijuí e Três de Maio. O objetivo é reduzir os custos de produção e aumentar a produtividade média de 10 litros vaca/dia para 30 litros vaca/dia.

A Cooperativa Central Gaúcha (CCGL), de Cruz Alta, também está disposta a firmar contratos de compra e venda a preço fixo. Recentemente, a cooperativa mais que dobrou a capacidade de processamento da planta, saltando de 1 milhão de litros por dia para 2,2 milhões. A intenção é atingir o volume máximo de captação em um prazo de três a cinco anos por meio de assistência técnica e fidelização dos produtores.

— Qualquer iniciativa que venha a melhorar a situação dos produtores e dar mais estabilidade, somos parceiros — disse o presidente da CCGL, Caio Vianna, referindo-se aos contratos a preço fixo.

Produtores reclamam dos preços recebidos

A providência vai ao encontro de pleito da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag), que reclama da falta de equilíbrio nos preços pagos. Segundo relatos que chegam à entidade, há casos de produtores que entregaram matéria-prima em julho e agosto, meses em que o preço estava valorizado, mas tiveram prejuízo com a remuneração defasada, pois receberam somente 45 dias depois, quando o valor registrava queda.

— Do jeito que está não dá mais para ficar. O produtor precisa saber quanto vai receber — desabafa o secretário-geral da Fetag, Pedrinho Signori.

Além da expansão da Lactalis e CCGL, a Santa Clara, de Carlos Barbosa, irá investir R$ 110 milhões. Com a nova unidade em Casca, a cooperativa irá dobrar a capacidade atual, que é de 600 mil litros por dia.

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Para atender à necessidade das empresas e atingir a capacidade instalada com os investimentos previstos — 10 milhões de litros a mais por dia, a produção gaúcha precisará crescer, em média, 5% ao ano nos próximos cinco anos, estima o Sindicato da Indústria de Laticínios (Sindilat).

— A indústria amplia para crescer de forma gradativa — afirma o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios do Estado (Sindilat), Alexandre Guerra, destacando que os investimentos são necessários para buscar a eficiência da produção em larga escala e agregar valor aos produtos para a abertura de novos mercados.

Entretanto, ressalta Guerra, para ter uma margem de segurança, os laticínios operam com até 85% da sua capacidade. No primeiro semestre, a quantidade de leite cru adquirido pelas indústrias do Estado foi 8,7% menor que no mesmo período de 2015, caindo de 1,66 bilhão de litros para 1,52 bilhão — 145 milhões de litros a menos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2015, os laticínios gaúchos processaram 3,49 bilhões de litros, quase o mesmo volume que em 2014, quando foram processados 3,43 bilhões de litros. Já a produção total de leite no Estado caiu de 4,69 bilhões de litros em 2014 para 4,59 bilhões de litros em 2015.

Para 2016, a expectativa do Sindilat é de manutenção do volume de leite captado para uma retomada em 2017.

— A saída é transformar os pequenos em médios e os médios em grandes — diz Guerra, lembrando que o produtor também tem de fazer a sua parte e buscar eficiência, com planejamento e trabalhando com indicadores.

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Energia monofásica é entrave na produção

Além das oscilações de preço que fazem parte do sistema de produção, que é sazonal devido às condições climáticas, os produtores ainda enfrentam outras dificuldades. Um dos entraves para avançar na profissionalização da produção de leite é a falta de energia elétrica bifásica, fator que dificulta até o uso de ordenhadeiras.

— Estes produtores estão atados no poste do subdesenvolvimento agropecuário, pois a inovação tecnológica depende da luz — lamenta o presidente da Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul (Ocergs), Vergilio Perius, destacando que mais de 30 mil produtores ainda tem energia monofásica.

O zootecnista Jaime Ries, assistente técnico da Emater, ressalta que o Estado tem potencial para continuar avançando e dobrar a produtividade. Entretanto, ainda é necessário tornar a atividade mais atrativa e rentável.

— Hoje, não há nenhum gargalo técnico que limite, basta estimular os produtores a investirem na atividade — comenta.

O veterinário Danilo Cavalcanti Gomes, coordenador da Câmara Setorial do Leite da Secretaria da Agricultura, comenta que qualquer investimento é bem-vindo desde que as contrapartidas decorrentes de benefícios fiscais direcionem parte do retorno para o setor.

— É fundamental existir uma contrapartida social. Não basta gerar empregos — afirma, acrescentando que, no caso de uma indústria de leite, uma boa compensação seria a garantia de manter o maior número possível de produtores na atividade.

Profissionalização impulsiona produtividade

Especialistas do setor apontam que o caminho para equacionar este paradoxo e ampliar a produtividade de leite no Estado é investir na profissionalização.

— Os produtores dedicados veem no leite uma oportunidade de negócio e estão preocupados em produzir mais — avalia o professor Carlos Bondan, da Universidade de Passo Fundo (UPF), acrescentando que a indústria consegue ampliar a produção por meio de projetos técnicos de fomento.

Doutor em Ciências Veterinárias, Bondan se diz surpreso com o investimento da Lactalis devido às dificuldades das indústrias já instaladas em comprar leite e atender à demanda interna.

Na avaliação do economista Leonardo Xavier, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com o avanço da tecnologia e da mecanização, a tendência é que alguns produtores desistam e outros ampliem a produção.

— Os menos aptos não vão conseguir se sustentar na atividade — avalia.

O economista Darcy Bitencourt, pesquisador em economia da produção leiteira da Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, acrescenta que o caminho é buscar soluções em conjunto.

— Precisamos fazer parcerias para fortalecer o setor e fazer um grande estudo da realidade do leite — avalia Bitencourt.

A orientação do pesquisador é de que os produtores busquem conhecimento para fazer o planejamento e a gestão da unidade de produção. Entre os indicadores que devem ser analisados estão a quantidade de animais, alimentação e área disponível, genética e sanidade.

Dicas: Como tornar a unidade de produção mais competitiva

— Para fazer a gestão da propriedade, é necessário ter planejamento.
— O primeiro passo é criar planilhas que permitam fazer o acompanhamento mês a mês.
— Entre as planilhas a serem elaboradas, estão: custo de produção, alimentação, genética e sanidade.
— Fazer a análise da qualidade do leite em laboratórios oficiais.
— Buscar o melhoramento do rebanho por meio do controle leiteiro.

Fonte: Darcy Bitencourt, pesquisador da Embrapa Clima Temperado

Fonte: Zero Hora